Peter Gøtzsche e a ‘Medicina Baseada na Desconfiança’

Peter Gøtzsche – Fonte: madinamerica.com

A notícia que mais acendeu o alarme da desconfiança no segundo semestre deste ano foi a demissão de Peter Gøtzsche do Instituto Cochrane, instituição entre as mais respeitadas no mundo acadêmico na produção de revisões independentes sobre práticas e terapias médicas. Gøtzsche era diretor do Centro Cocrhane de Copenhagem e membro da diretoria internacional da entidade desde a sua fundação em 1993.
Esteve no Brasil em 2016, para o lançamento de seu livro “Medicamentos Mortais e Crime Organizado – Como a indústria farmacêutica corrompeu a assistência médica” (Bookman Editora). Muito polêmico, como não poderia deixar de ser, ele comparou o comportamento da indústria farmacêutica ao das organizações mafiosas. Assim, sem meias palavras. E deu alguns exemplos para justificar a tese: a prática de extorsões aos organismos reguladores, de fraudes em estudos e pesquisas, de forjar evidências científicas, e o agravante cínico da reincidência. Ele investigou processos judiciais em que os dez maiores laboratórios farmacêuticos do mundo estavam envolvidos e demonstrou que, em muitos casos, as mesmas práticas ilícitas continuavam sendo realizadas por diretores e gestores ligados à pesquisa, apesar das multas milionárias e advertências de instituições do governo norte-americano e de países europeus. http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/11/1832841¬industria¬farmaceutica¬age-como¬o¬crime¬organizado¬diz¬pesquisador.shtml

Agora, em outubro, Gøtzsche foi expulso da diretoria e da entidade, após reunião do Conselho de Administração, por decisão apertada de 6 votos a 5. Finda a reunião, quatro outros diretores-pesquisadores se demitiram. O estopim da ocorrência se deveu a uma discordância na análise da eficácia de vacinação para o HPV, em que uma série de estudos com várias pesquisas não foram consideradas. http://www.sciencemag.org/news/2018/09/evidence-based-medicine-group-turmoil-after-expulsion-co-founder

Os editores do BMJ Evidence-Based Medicine, onde havia sido publicada a crítica à análise dos estudos da vacina, foram claros em apoiar o “criticismo inconveniente” de Gøtzsche e não se desculparam com a Cochrane. https://www.bmj.com/content/362/bmj.k3927

Outras instituições, como o The International Society of Drug Bulletins (ISDB)The Council for Evidence-based Psychiatry também apoiaram o pesquisador. ( ver  http://cepuk.org/2018/09/19/cep-expresses-support-professor-peter/ e https://www.bmj.com/content/362/bmj.k3945/rr-0 )

O mais importante é que o argumento final de Gøtzsche é que a influência da indústria está chegando muito forte à diretoria da Cochrane, e que esta estaria passando por uma “crise de governança moral’, onde a questão do conflito de interesses não ficou resolvida entre os seus integrantes. Não há como não sentir um clima hamletiano neste episódio no meio científico… há algo de podre no reino da Cochrane Dinamarca.

 

Luiz Vianna

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